Ciclo de emoções no trânsito: 4 fases que contagiam
Publicado em 19 de outubro de 2026 · por Rodrigo Ramalho
Olá, aqui é Rodrigo Ramalho, Head Coach do ONSV.Academy, e nesta análise vamos percorrer algo que quase nunca aparece nas estatísticas: a ciranda de emoções que acompanha um sinistro, do susto que não virou acidente até a tristeza que pode virar depressão. É um ciclo que começa antes da colisão e raramente termina com ela.
Para o gestor de frota ou de SST, entender esse ciclo muda a gestão de risco. Um colaborador que sofreu ou provocou um acidente não volta ao trabalho "zerado": volta com medo, raiva, culpa e, às vezes, um quadro de estresse pós-traumático. Isso é risco psicossocial, e a NR-1 exige que ele seja tratado. Segundo o Observatório Nacional de Segurança Viária e a UFPR, 34.881 pessoas morreram no trânsito do Brasil em 2023. Por trás de cada número há uma rede de pessoas emocionalmente atingidas.
Fase 1: antes, ansiedade e medo
Na metodologia do ONSV.Academy, o ciclo costuma começar com um medo aprendido. O mais comum é o medo do tempo: "estava com medo de não chegar a tempo". Há também o medo de errar, de perder, de ser repreendido e de não ser satisfeito.
Esse medo, quando se prolonga, vira ansiedade antecipatória: o corpo já está em alerta antes de qualquer estímulo. O Brasil tem uma das maiores prevalências de transtornos de ansiedade do mundo segundo a OMS, cerca de 9% da população, e a Ipsos colocou o país como o 4º mais estressado entre 31 nações pesquisadas.
Um condutor assim já entra no trânsito com a margem de tolerância reduzida. Qualquer obstáculo, como um veículo lento ou um semáforo, passa a ser percebido como ameaça.
Fase 2: durante, raiva e imprudência
O obstáculo frustra a expectativa e a raiva dispara. No exemplo clássico do livro: o condutor com medo de se atrasar fica irritado com um veículo lento, ultrapassa pela direita e colide com um carro que entrava na via.
É nesse momento que a emoção vira comportamento de risco: aceleração, buzina, ultrapassagem proibida, perseguição. A National Highway Traffic Safety Administration (NHTSA) estima que 67% das fatalidades no trânsito envolvem direção agressiva (Goodwin et al., 2015).
É possível notar que todas as emoções negativas tendem a retornar, porém com motivos e intensidades diferentes, formando um "ciclo vicioso".
Rodrigo Ramalho, Educação Emocional no Trânsito: o medo e a raiva dos condutores
Fase 3: depois, medo, raiva e tristeza
Passado o impacto, as emoções voltam com outros motivos. Medo da polícia, da perícia, do processo e da cobrança do empregador. Raiva ao pagar a multa, o conserto e ao ouvir a versão do outro. E, em seguida, a tristeza: arrependimento, pesar pelos danos e, nos casos graves, luto.
Há ainda um desvio frequente. Para fugir da culpa, muitos condutores negam a responsabilidade, mecanismo que a psicologia chama de dissonância cognitiva. O resultado é indignação e ressentimento no lugar do aprendizado.
Quando a tristeza vira depressão e trauma
Já Hipócrates, há cerca de 2.500 anos, distinguia a tristeza normal da melancolia, nome antigo do que hoje chamamos de transtorno depressivo. A tristeza paralisa, isola e rouba energia. Quando não é elaborada, pode se agravar.
Os acidentes graves podem produzir o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT): lembranças recorrentes, esquiva de lugares e situações, insônia e hipervigilância. Cerca de 15% das pessoas que sofrem traumas psicológicos apresentam o quadro, que pode evoluir para depressão, pânico, fobias e ansiedade generalizada.
Ele atinge vítimas, condutores envolvidos e profissionais que presenciam a cena. Pierre Janet descreveu, ainda no século XIX, a dissociação como defesa diante do trauma, um sinal que pode esconder uma psicopatologia em desenvolvimento.
O contágio: o ciclo atinge quem estava de fora
O ciclo de um condutor contamina outros. Na simulação do livro, a buzina de quem tem pressa gera raiva no condutor à frente, que responde com ameaça. Os dois entram em risco ao mesmo tempo. Um terceiro motorista, preso atrás do conflito e com medo do tempo, inicia o seu próprio ciclo.
E o contágio vai além das vias. Quem acompanha a notícia sente raiva e inconformismo diante da imprudência. Familiares das vítimas convivem com luto e, muitas vezes, com depressão. Colegas de trabalho e a própria empresa absorvem o impacto. Bjureberg e Gross (2021) mostram como a regulação das emoções está ligada à agressão no trânsito, o que reforça a necessidade de agir no início da cadeia.
Como interromper o ciclo: 4 fases, 4 ações
- Antes: saia mais cedo e planeje a rota. Mapeie o perfil emocional da equipe para identificar quem tem medo do tempo ou de errar.
- Durante: respire, aumente a distância e não revide. A pausa de poucos segundos quebra o elo entre raiva e comportamento.
- Depois: ofereça acolhimento a quem se envolveu em sinistros. Escuta qualificada e apoio psicológico reduzem o risco de TEPT.
- Sempre: mantenha a educação emocional contínua. Ciclos de 12 meses combatem a curva do esquecimento e sustentam a mudança de atitude.
Foi para esse fim que estruturamos o Programa de Saúde Mental para Motoristas, uma solução do ONSV.Academy que une Educação Emocional no Trânsito e Segurança Comportamental.